A manhã estava quente, exageradamente quente. Há dias que as temperaturas se mantinham elevadas, ir à praia não era, de longe, a melhor solução e o sol convidava qualquer pessoa normal, na sua perspectiva, a gozar o fresco da casa, que mantinha com o ar condicionado ligado e todas as persianas para baixo. A certeza de que o sentimento que nutria pelo Zé Pedro era correspondido e estava cada vez mais sólido devolvia-lhe, aos poucos, a paz de espírito que adquirira no últimos meses e que tanto prezava. Por isso as noites de insónias davam, agora, lugar às noites tranquilas regadas por sonhos que a faziam acordar com um largo sorriso, depois de um sono sereno.
Eram dez horas quando finalmente acordou, depois de um refrescante e grande copo de água gelada, abriu a torneira da banheira que deixou encher até meio. A água morna, e o perfume a morango dos sais de banho, abrandaram a moinha que sentia na região lombar, devido a tantas horas de preguicite no colchão, e a vontade de ouvir a voz daquele que ocupava os seus pensamentos a cada instante. Será que também ele pensava nela? Bem, pelo menos sabia que às oito da manhã tinha pensado, quando ligou o telemóvel e recebeu a sms de parabéns que lhe enviara logo à meia-noite! Sabia que não ia receber resposta, há uns dias que ele lhe dissera que não tinha saldo, mas mesmo assim queria demonstrar-lhe que sabia a sua data de aniversário há anos e não seria a esta altura das suas vidas que se iria esquecer de o demonstrar.
A rotina que tinha adquirido na cidade onde trabalhava diluía-se a cada dia, desde que voltara para casa dos pais, e esta situação desagradava-a e muito! Mas quanto à sua vida profissional pouco ou nada poderia fazer, até ao final do mês seguinte a sua colocação estava garantida, mas não sabia o que lhe reservava o início do novo ano lectivo e a sua situação económica não permitia que realizasse o sonho, mais ou menos antigo, de ter um espaço só para si. Embora gostasse muito da sua família, estava a poucos anos de entrar no clube dos inta e, dividir o quarto com uma irmã adolescente ou dar constantes satisfações sobre onde ia, com quem ia e quando voltava sufocavam-na! Ele compreendia-a e, à sua maneira, queixava-se dos mesmos problemas…
Enquanto aplicava o creme hidratante no corpo, lembrava-se da promessa de uma massagem relaxante e irresistível que ele lhe fizera numa das tantas conversas que tinham no mensageiro, quando não se podiam encontrar, e sorria. Sorria, mas tão cedo, pelas suas contas, não poderia desafia-lo, cara a cara, para que cumprisse a sua promessa. Parecia-lhe que ele andava a evitar estar perto, mas porquê? Ela desconhecia a razão para tal e isso irritava-a. Se ele podia, depois de voltar da sua visita diária à praia, estar o tempo todo em casa ligado à net e a conversar consigo porquê é que não podiam ir beber um café depois do jantar? Talvez porque o café fosse apenas um pretexto para estarem juntos até às três da madrugada, gozando da companhia um do outro, muitas vezes sem proferir uma palavra sequer, durante horas.
Enquanto comia uma talhada de melão, o fruto da epóca mais apreciado a seguir à melancia, e bebia mais um copo de água gelada pensava em como gostava de ter passado a noite anterior da mesma forma que passaram na última vez que se encontraram. Depois de um café e um capuccino, numa esplanada cheia de adolescentes gabarolas e miúdas meio parvinhas, entraram no carro indecisos se iam ou não ao cinema, ele conduziu sem rumo (pelo menos era isso que, na altura, ela pensava) e ao fim de algum tempo estavam em frente à praia, e mais uma vez sem grandes conversas ali estavam os dois. Ele esperava pacientemente que ela ganhasse coragem para pôr os pés na areia que tanto a incomodava e fazia com que a praia não fosse o seu lugar favorito desde criança, mas ele merecia que ela fizesse esse pequeno esforço e além disso queria sentir, nem que fosse por breves momentos, que só existiam os dois no mundo.
O céu estrelado, a agitação do mar e o bailado da gaivotas, convidavam a sentar e a desfrutar a noite… Contudo, a areia estava gelada e o vento muito forte e ela tilintava de frio enquanto ele ria a bom rir, divertidíssimo com o esforço da snobe mimada (como a chamava para a irritar) em manter o ar de quem estava totalmente confortável. No ar sentia-se a inquietude de quem está apaixonado, ela suspirava e ele ora se estendia na areia, ora se sentava a seu lado, enquanto se olhavam e se perdiam nos seus pensamentos…
Eram momentos, sem dúvida, a repetir e a noite anterior , para si, era a ideal. Planejara não hesitar quando chegasse o momento de o cumprimentar, em vez de oferecer a face dar-lhe-ia um beijo carregado de insinuações, que na sua opinião seria um óptimo pretexto para acabar com aquela distância que ela mesma criara há meses atrás, quando se apercebera que estava apaixonada pelo seu amigo. Nunca tinha posto a hipótese de se render a esse sentimento, mas agora estava fora de questão continuar a lutar contra si mesma. E além disso, adoraria ter trocado a mensagem escrita no toutch-screen por um “Feliz aniversário” sussurrado ao ouvido. Talvez ele tivesse adivinhado e antecipado as suas intenções e por isso, lhe dissera, no fim de semana, que nos próximos dias seria difícil estarem juntos… Mas estava a aprender a ser paciente e decidida a respeitar o desenvolvimento natural das situações. E quando o seus objectivos se afiguravam como uma tarefa árdua, procurava lembrar-se das longas conversas que tiveram durante meses, nas quais punham os anos que passaram um sem o outro em dia e desabafavam as suas angústias. Embora as coisas estivessem melhores agora, ele ainda tinha os seus problemas e ela não queria, de maneira nenhuma, que ele se sentisse pressionado.
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