sábado, 7 de agosto de 2010

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Havia dois dias que Catarina estava calada, distante… Não correspondia às brincadeiras e pela forma como escrevia, podia perceber que alguma coisa estava diferente. Sentia falta dela… E duvidava do que sentia, afinal como poderia sentir falta de alguém só porque andava mais calada no mensageiro e o telemóvel não tocava tantas vezes com a chegada de sms. Talvez porque, mesmo contra a sua própria vontade, tinha deixado esta mulher entrar na sua vida. Vida que embora tivesse prioridades bem definidas, continuava desarrumada. Ainda andava à procura de soluções para as suas desmotivações e para superar, no prazo que ele mesmo definira, os objectivos que traçara.


Sabia que, com mais ou menos relevância, tudo na sua vida dependia do facto de acabar o doutoramento. Só assim se podia dedicar a cem por cento a um trabalho e consequentemente realizar todas as suas vontades e desejos. Mas mesmo assim era difícil concentrar-se em tomar as rédeas, seguir o rumo certo e começar a produzir. E como se a agitação do Verão a época balnear por si só não bastassem para o desconcentrar ou afastar do livros e da escrita, ela não saía do seu pensamento. Qualquer coisa era pretexto para pensar em como seria interessante discutir, partilhar opiniões e, acima de tudo, perceber que era ouvido e compreendido, de forma franca, como ultimamente sentia que só ela era capaz de fazer.


Já estava habitado às mensagens de boa noite, aquelas palavras sem pretensões nem floreados, muitas vezes eram apenas «Boa noite!» ou «Dorme bem!» antes de adormecer surtiam em si um efeito estranho, funcionavam ao mesmo tempo como um sussurro aliciante e um gesto calmo e relaxante. Esta seria a segunda noite, em muitas noites, que não iria ler nenhuma mensagem de Marta… Decidiu por fim àquele “silêncio”, se «Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé!» pensou em voz alta enquanto digitava um «Bons sonhos!» que se tivesse corpo e voz, todo ele seria nervoso miudinho. Demorou breves momentos a receber uma resposta e a prontidão encheu-o de vontade de a convidar para sair, queria matar as saudades que sentia de a ver, de a tocar, de a cheirar, enfim de a ter a seu lado. Contudo, só o faria noutro dia, tinha receio de parecer demasiado inoportuno. Afinal, tinha ficado dois dias sem entrar em contacto com ela e de repente, um convite?! Não. Já tinha decidido não se permitir a ter pressa no que dissesse respeito a esta relação e era assim que as coisas iam continuar.