sexta-feira, 30 de julho de 2010

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Passara-se uma semana desde que tinham estado na praia e à despedida, antes de sair do carro, o Zé Pedro dissera-lhe «Tenho uma coisa para te dizer, mas só digo quando for a altura certa…». No seu íntimo ela sabia bem o havia para dizer, também ela tinha coisas para falar mas não sentia que fosse a altura certa. Sentia-o um tanto ao quanto distante, pelo menos não tão próximo como ela desejava.


Quando estavam juntos, ele fazia questão de falar sobre tudo e mais alguma coisa e as ex-namoradas também constituíam parte do rol dos temas abordados, mas este, na sua opinião, estava classificado como assunto desinteressante! Nessas alturas, ficava calada e se tivesse que responder, fazia-o com monossílabos e quando mesmo assim o tema continuava, anuía com hum hum ou acenos de cabeça, enquanto ia deixando perder os seus olhares por entre a paisagem ou as pessoas em redor. Acreditava que se fazia entender assim, que era nítido que conversar sobre quem já tinha sido tão importante na sua vida a incomodava e muito! Mas ele mesmo assim continuava, explanando o mais possível as suas recordações, intercalando-as com «estás muito calada hoje» ou « não dizes nada?» e respondia irónico com um «pois claro!», quando, fechando o rosto, Catarina respondia de forma seca « não tenho nada para dizer!». Dava-lhe gozo, só podia!


Embora os seus encontros tivessem estes pequenos dissabores, ela estava disposta a encontrar-se com Zé Pedro, mesmo que fossem para tomarem simplesmente um café juntos ao fim do dia. Mas, sempre que fazia um convite, recebia desculpas, que considerava totalmente esfarrapadas, para não poder aceitar. Preferia que ele lhe dissesse que não lhe apetecia ou que tinha coisas combinadas que não queria desmarcar, pelo menos estaria a dizer a verdade. E para si, a verdade, mesmo que magoasse, era sempre a melhor opção.


Estava cansada de se sentir a segunda opção na vida de alguém que embora tivesse passado a ter mais projecção na sua, não era a suficiente para o deixar manipular os seus dias e brincar com as suas emoções. Prometeu a si mesma que não faria mais nenhum convite, que não enviaria mais nenhuma mensagem nem começaria mais nenhuma conversa no mensageiro. Mesmo que lhe custasse deixar de ter notícias ou simplesmente deixar de rir com as parvoíces escreviam um ao outro. Estava decidido e pronto.

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